A ocorrência de sintomas depressivos atinge 34% dos maiores de 50 anos

Pesquisa da Unicamp ouviu quase 8.000 pessoas e 16% relataram solidão

A depressão atinge 34% dos maiores de 50 anos no país e cerca de 16% se sentem sozinhos. Uma pesquisa da Unicamp revelou que a presença desses sentimentos é quatro vezes mais comum entre os idosos que relatam sempre se sentirem solitários, e o risco de desenvolver depressão dobra pelo simples fato da pessoa morar sozinha.

“O que sei na minha vida é solidão. Onde estou eu só tenho a presença de Deus, que está presente na minha vida a todo segundo, mas com as pessoas me sinto sozinha”, disse Welma Cesária, de 63 anos. Casada há 40 anos, a idosa conta que apesar de ter marido, filhos e netos, ela se sente sozinha a maior parte do tempo.

Ela conta que nem sempre se sentiu assim. No decorrer da vida, nunca foi diagnosticada com depressão e se sentia feliz a maior parte do tempo. Ao chegar aos 50 anos, no entanto, começou a sentir os efeitos da solidão. O marido mora em uma chácara próximo a Bela Vista em Goiás e a rotina dela se alterna entre a fazenda e sua casa na capital.

Questionada se a possibilidade de se sentir sozinha seria maior sem o casamento, Welma disse que não faz diferença. “A minha solidão é principalmente referente ao casamento. Eu me sinto sozinha, sem companheirismo em nada”, explicou. Apesar dos filhos morarem na mesma cidade, raramente recebe a visita deles em casa.

A pesquisa foi fundamentada nas respostas fornecidas por 7.957 pessoas com 50 anos ou mais para a primeira edição do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil).

Diferença entre solidão e isolamento social

A pesquisa também estabelece uma diferença entre a solidão e o isolamento social. A solidão, ou sentir-se sozinho, é definida como um sentimento negativo e doloroso, geralmente subjetivo, que acontece quando a pessoa espera receber mais das suas relações sociais e recebe menos, gerando uma insatisfação. É diferente do que ocorre no isolamento social, que é algo mais objetivo, que se consegue medir via indicadores, tais como viver sozinho, manter contatos sociais pouco frequentes, ter baixos níveis de atividade social ou de interações com outras pessoas.

O médico geriatra e doutorando em gerontologia Paulo Afonso Sandy Junior, um dos responsáveis pelo estudo, explicou as principais diferenças. “Quando eu falo de isolamento social, estou falando de algo objetivo. Não é porque uma pessoa tem poucas relações ou vive sozinha que necessariamente vai se sentir solitária. Do mesmo modo, a pessoa pode se sentir solitária não estando isolada, estando casada, tendo amigos, trabalhando”, diz o médico.

Método de pesquisa

Os participantes foram questionados sobre a frequência com que se sentiram sozinhos ou solitários, podendo responder “sempre”, “algumas vezes” ou “nunca”. Entre os quase 8.000 entrevistados, 34% relataram a presença de sintomas depressivos, enquanto 16% afirmaram se sentir sozinhos. Dentre aqueles que relataram sintomas depressivos, 33% mencionaram sentir-se sempre sozinhos.

Os sintomas depressivos dos participantes foram avaliados por meio de um padrão utilizado em estudos científicos para verificar sintomas de depressão em adultos. Trata-se de uma escala composta por oito itens indiretos, sem a palavra depressão, onde os pesquisadores perguntam sobre sintomas comuns. Se a pessoa respondeu ao menos quatro dos oito itens favorecendo à depressão, ela foi considerada como tendo sintomas depressivos.

Paulo Afonso Sandy Junior também explicou como funciona as variáveis da pesquisa. “Existe uma pequena diferença entre nomear essa variável como depressão ou como sintoma depressivo, já que a depressão é um diagnóstico médico. Para isso, a nossa fonte de dados teria que ser um prontuário médico. Como nossa base de dados foi uma entrevista realizada diretamente com idosos e nós avaliamos os sintomas que eles reportaram, optamos por chamar a variável de sintomas depressivos e não de depressão”.

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